Bem-aventurados os que não viram e creram

“Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram.”

João 20:29

— Explicação do Versículo —

Tomé pediu ver as chagas. Jesus apareceu, mostrou, e Tomé creu. Mas a última palavra de Cristo nesse episódio não é de censura — é de abertura. Ele abre a bem-aventurança para os que vieram depois: os que não tocaram, não viram, e mesmo assim creram. Essa, diz Jesus, é uma forma superior de fé — não porque seja mais fácil, mas porque é mais pura.

São João da Cruz, Doutor da Igreja e mestre da vida mística, construiu toda a sua espiritualidade em torno desse princípio. Em A Subida do Monte Carmelo, ele escreve que a fé é o único meio proporcionado para a união com Deus precisamente porque é escura — ela não se apoia em visões, sentimentos ou consolações. Quem busca sinais para crer está, na verdade, buscando a si mesmo, não a Deus.

A noite escura da alma, que João da Cruz descreveu com uma profundidade que ainda hoje poucos igualaram, é o processo pelo qual Deus retira os apoios sensíveis da fé para que ela se firme no único fundamento que não passa: a Palavra e a graça, sem sentir nada além disso.

— Reflexão —

Vivemos numa cultura que exige evidência para tudo. E há uma versão religiosa dessa exigência que parece piedosa mas que é, no fundo, desconfiança: a busca incessante por sinais, confirmações, consolações — como se Deus precisasse provar a cada manhã que ainda existe.

São João da Cruz diria que essa busca, por mais sincera que seja, pode tornar-se um obstáculo à fé real. A fé que Jesus elogia em João 20:29 é a que dispensou as muletas — a que caminha no escuro porque confia em Quem conhece o caminho, não porque vê a estrada à frente.

Crer sem ver não é credulidade cega. É a forma mais exigente e mais limpa de fé que existe. É a fé dos mártires, dos contemplativos, dos que oraram durante décadas sem resposta sensível e não desistiram. Essa é a fé que Jesus chama de bem-aventurada.

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