Eu creio, Senhor; ajuda a minha incredulidade

“E logo o pai do menino exclamou com lágrimas: Eu creio, Senhor; ajuda a minha incredulidade.”

Marcos 9:24

— Explicação do Versículo —

Esse versículo saiu da boca de um pai com o filho à beira da morte. Jesus acabava de perguntar: “Podes crer? Tudo é possível ao que crê.” E a resposta do pai não foi a de um homem seguro de sua fé. Foi a de um homem dividido que, mesmo dividido, não desistiu de ir até Jesus.

Santo Agostinho, nos seus Sermões, comenta esse episódio com uma lucidez que poucos alcançaram: o pai não mentiu quando disse “eu creio”, e não mentiu quando disse “ajuda a minha incredulidade”. As duas coisas eram verdadeiras ao mesmo tempo. A fé humana é sempre assim — uma mistura real de certeza e dúvida, de confiança e medo, de entrega e resistência interior.

Para Agostinho, o ato de levar a dúvida até Cristo — em vez de deixá-la paralisar do lado de fora — já é, em si, um ato de fé. Não é a fé perfeita que aproxima. É a fé imperfeita que, mesmo assim, se move na direção certa.

— Reflexão —

Essa pode ser a mais humana de todas as orações bíblicas. Ela não pretende ser o que não é. Não disfarça a dúvida com linguagem piedosa. Ela coloca os dois estados — fé e incredulidade — diante de Cristo ao mesmo tempo e pede ajuda para o que falta.

Quantas pessoas saem da Igreja — ou nunca entram — porque acham que a fé é um pré-requisito que precisam conquistar antes de se aproximar? Esse versículo desfaz essa ilusão com uma cena de uma honestidade desconcertante: o homem chegou com a fé que tinha. E isso foi o suficiente para que o milagre acontecesse.

A Igreja Católica, na sua tradição mais honesta, sempre soube que a fé não é um estado de chegada — é um caminho. E os que caminham nele carregam, em proporções variáveis, crença e incredulidade ao mesmo tempo. O que define não é a pureza da mistura — é a direção do passo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *